sábado, 16 de dezembro de 2006

METADE (Osvaldo Montenegro)


E a força do medo que tenho

Não me impeça de ver o que sei

E que a morte de tudo que eu acredito

Não me tampe os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é o grito

Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe

seja linda ainda que triste

Que a pessoa que eu amo seja para sempre amada

Mesmo que distante

Porque metade de mim é partida

E a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas

Como prece e nem repetidas com fervor

Apenas respeitadas, como a única coisa que resta

A uma pessoa inundada de sentimentos

Porque metade de mim é o que eu ouço

Mas a outra metade é o que calo.

Que esta tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que eu penso

E a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste

Que conviva comigo menos, tornando-se ao menos suportável

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso

Que me lembra com saudade a infância

Porque metade de mim é a lembrança do que foi

E a outra metade eu não sei.

Que seja preciso mais do que uma simples alegria

Para fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo

Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta

Mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar

Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer

Porque metade de mim é platéia

E a outra metade canção.

E que a minha loucura seja perdoada

Porque metade de mim é amor

E a outra metade também.

Um comentário:

Gládis Leal dos Santos disse...

Olá,

Obrigada pela Visita ao blog Palavra Aberta. Um ótimo Natal e Feliz Ano Novo pra vc.

Abraços
Prof. Gládis